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Monitorização laboratorial no seguimento da cirurgia bariátrica e metabólica

Profa Dra Alessandra Bedin Pochini

1. Evidências internacionais indicam que identificar e tratar essas alterações antes do procedimento contribui para reduzir eventos adversos e favorecer a recuperação pós-operatória2. No período pós-cirúrgico, sobretudo nas técnicas com desvio intestinal, o acompanhamento contínuo torna-se imprescindível para prevenir anemia, neuropatias e distúrbios osteometabólicos relacionados à absorção reduzida e à maior demanda fisiológica3,4. A adoção de protocolos de seguimento estruturados permite detecção precoce de alterações, suplementação adequada e manutenção de desfechos seguros e duradouros, com impacto direto na qualidade do cuidado e na segurança metabólica a longo prazo4.

Deficiências pré-operatórias

Na avaliação pré-operatória, pacientes com obesidade grave frequentemente já chegam com carências nutricionais importantes, o que torna a avaliação laboratorial uma etapa essencial antes da cirurgia bariátrica. Observa-se que 85,5% apresentam pelo menos uma deficiência de micronutrientes, com destaque para vitamina D (74,5%), folato (33,5%), ferro (32%), cálcio (13%) e vitamina B12 (10%) 1. A anemia está presente em 11,5% dos casos, sendo a deficiência de ferro responsável por 82,6% dessas situações. A inflamação sistêmica, frequentemente elevada, ocorre em 65% dos indivíduos e se associa a maior número de deficiências, especialmente de ferro, folato e B121. Esse cenário reflete não apenas padrões alimentares inadequados, mas também alterações na absorção, estocagem e metabolismo dos nutrientes, intensificadas pela inflamação crônica típica da obesidade, demonstrando que é possível apresentar excesso calórico e, simultaneamente, quadro de desnutrição micronutricional1.

Desta forma, a avaliação laboratorial pré-operatória é etapa fundamental no cuidado metabólico da pessoa com obesidade candidata à cirurgia. Ela permite reconhecer deficiências já presentes, corrigi-las antes do procedimento e estabelecer valores basais para comparação ao longo do seguimento. Esse painel inicial deve incluir hemograma, ferritina, ferro sérico, TIBC, saturação de transferrina, vitamina B12, vitamina D e, em cenários específicos, zinco e cobre (Tabela 1)1.

Deficiências pós-operatórias

No pós-operatório, o monitoramento segue calendário definido, com reavaliações aos 3, 6 e 12 meses no primeiro ano e periodicidade anual a partir de então, de forma contínua 3. Em técnicas com desvio duodenal ou jejunal e em perfis clínicos de maior risco, como sangramento menstrual abundante, gestação, uso crônico de inibidores da bomba de prótons, diarreia persistente, baixa ingestão proteica, doença hepática metabólica ou em pacientes sintomáticos, os intervalos devem ser encurtados3,4. O acompanhamento é vitalício, sobretudo após procedimentos disabsortivos4.

A interpretação dos exames exige atenção na questão metabólica da obesidade e da esteatose hepática. A ferritina, como proteína de fase aguda, pode se apresentar elevada mesmo na presença de deficiência relativa de ferro, justificando a análise conjunta com saturação de transferrina e proteína C reativa para distinguir deficiência absoluta de deficiência funcional associada a inflamação1,4,5.

O painel micronutricional inclui marcadores hematimétricos e metabolismo do ferro, além de vitamina B12, folato, vitamina D e PTH, essenciais para detecção precoce de distúrbios hematológicos e ósseos3,4,8. A avaliação de zinco e cobre é indicada de rotina nas técnicas com desvio intestinal proximal e diante de sinais clínicos sugestivos, utilizando coleta adequada para oligoelementos para evitar hemólise e interpretações falsas e, quando possível, suspendendo suplementação por 24 a 48 horas para minimizar interferências4,6,7,9. Essa vigilância estruturada reduz o risco de complicações hematológicas, ósseas e neurológicas (algumas potencialmente irreversíveis) e sustenta a segurança metabólica a longo prazo1,3,4,8.

Tabela 1. Protocolo laboratorial para acompanhamento de cirurgia bariátrica1,3,4,6,7,8,9

Parâmetro Quando solicitar Técnica cirúrgica Situações que exigem antecipação Coleta Critérios clínico-laboratoriais Conduta
Painel basal pré-operatório Antes da cirurgia Todas Obesidade grave inflamatória, esteatose hepática, múltiplas deficiências - Identificação de deficiências e baseline Corrigir e documentar
Hemograma Pré-operatório; 3, 6, 12 meses; anual Todas; intensificar em RYGB, OAGB, BPD/DS Menstruação intensa, gestação, AINE/anti-agregantes, sintomas - RDW alto sugere deficiência precoce; anemia micro/macro Reavaliar 8–12 semanas após reposição
Ferro sérico, Ferritina, TIBC/TSAT Pré-op.; 3, 6, 12 meses; anual; trimestral se risco RYGB, OAGB (alça longa), BPD/DS Menstruação intensa, gestação, sintomas, inflamação Suspender ferro 24–48h Ferritina <30 μg/L ou TSAT <20%; <100 μg/L com inflamação Diferenciar deficiência absoluta vs funcional com PCR
PCR Quando ferritina não explica o quadro Obesidade, esteatose hepática Doença inflamatória, esteatose hepática, infecção - PCR elevado mascara ferritina Interpretar ferritina
Vitamina B12 Pré-op.; 6 e 12 meses; anual Todas (↑ relevância em RYGB/OAGB/DS) Vegetarianismo, metformina, IBP crônico, sintomas neurológicos - Valores baixos ou limítrofes; usar homocisteína/ácido metilmalônico Repor e monitorar resposta
Folato Pré-op.; 6 e 12 meses; anual Todas Gestação, anemia, dieta restrita - Folato baixo com anemia macro Repor conforme necessidade
Vitamina D (25-OH) Pré-op.; 6 e 12 meses; anual Todas (atenção SG/RYGB/OAGB/DS) Osteopenia, osteoporose, menopausa, baixa exposição solar - Meta >30 ng/mL Repor vitamina D; checar cálcio/magnésio
PTH Pré-op.; 6 e 12 meses; anual Todas (foco em disabsortivas) Osteopatia metabólica, vitamina D baixa persistente - PTH elevado mesmo com vitamina D normal Ajustar cálcio, vitamina D, magnésio
Zinco Anual; imediato se sintomático RYGB/OAGB/BPD-DS; SG sob risco Diarreia crônica, baixa proteína, alopecia, alterações cutâneas Tubo especial (evitar hemólise) Zinco baixo + sintomas Repor e monitorar cobre
Cobre (± ceruloplasmina) Anual; imediato se sintomas neurológicos/anemia + neutropenia RYGB/OAGB/BPD-DS; SG sob risco Uso prolongado de zinco, sintomas neurológicos Tubo especial (evitar hemólise) Cobre baixo + ceruloplasmina baixa/normal-baixa Repor cobre; revisar zinco

Abreviações:
RYGB = Bypass gástrico em Y-de-Roux;
OAGB = Bypass gástrico em anastomose única;
BPD/DS = Derivação biliopancreática com duodenal switch;
AINE = anti-inflamatórios não-esteroidais;
IBP = inibidores de bomba de prótons;
SG = Gastrectomia Sleeve.

Conclusão

No seguimento longitudinal, a principal mensagem prática é que o acompanhamento laboratorial deve ser contínuo e estruturado, pois a aderência naturalmente diminui com o tempo e está associada ao aumento de deficiências nutricionais3,4. A interpretação dos exames deve levar em consideração o contexto, considerando quadro clínico, técnica cirúrgica e marcadores inflamatórios, evitando conclusões baseadas em valores isolados3,4. A relação entre zinco e cobre merece atenção especial: reposições agressivas de zinco podem induzir deficiência de cobre com repercussões neurológicas e hematológicas, o que exige monitorização coordenada desses elementos4,6,7,9. Dessa forma, a integração entre cirurgião, equipe nutricional e atenção primária sustenta vigilância precoce, intervenção oportuna e segurança metabólica duradoura1,3,4,8.

Referências:

  1. Pellegrini M, Rahimi F, Boschetti S, Devecchi A, De Francesco A, Mancino MV, et al. Pre-operative micronutrient deficiencies in patients with severe obesity candidates for bariatric surgery. J Endocrinol Invest. 2021;44(7):1413-1423. doi:10.1007/s40618-020-01439-7.
  2. Parrott J, Frank L, Rabena R, Craggs-Dino L, Isom KA, Greiman L. American Society for Metabolic and Bariatric Surgery Integrated Health Nutritional Guidelines for the Surgical Weight Loss Patient: 2016 Update—Micronutrients. Surg Obes Relat Dis. 2017;13(5):727-741. doi:10.1016/j.soard.2016.12.018.
  3. Mechanick JI, Apovian C, Brethauer S, Garvey WT, Joffe AM, Kim J, et al. Clinical practice guidelines for the perioperative nutrition, metabolic, and nonsurgical support of patients undergoing bariatric procedures – 2019 update. Endocr Pract. 2019;25(12):1346-1359. doi:10.4158/GL-2019-0406.
  4. O’Kane M, Parretti HM, Pinkney J, Welbourn R, Hughes CA, Mok J, et al. British Obesity and Metabolic Surgery Society guidelines on perioperative and postoperative biochemical monitoring and micronutrient replacement for patients undergoing bariatric surgery – 2020 update. Obes Rev. 2020;21(11):e13087. doi:10.1111/obr.13087.
  5. World Health Organization. WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. Geneva: World Health Organization; 2020. 82 p. ISBN: 978-92-4-000012-4.
  6. Mozaffar B, Idris I. A literature review of taste change and zinc deficiency after bariatric surgery: Could there be a causal link? Obes Surg. 2023;33(1):313-331. doi:10.1007/s11695-022-06197-4.
  7. Zarshenas N, Tapsell LC, Batterham M, Neale EP, Talbot ML. Investigating the prevalence of copper and zinc abnormalities in patients pre and post bariatric surgery: an Australian experience. Obes Surg. 2023;33(11):3437-3446. doi:10.1007/s11695-023-06822-w.
  8. Berti LV, Viegas F, Marchesini C, Villas-Boas ML, Valezi AC. Consenso brasileiro do manejo nutricional de pacientes com anemia pós-cirurgia bariátrica. São Paulo: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM); 2022. Disponível em: https://sbcbm.org.br/wp-content/uploads/2022/06/Consenso-brasileiro-do-manejo-nutricional-de-pacientes-com-anemia-pos-cirurgia-bariatrica.pdf
  9. Jiao Y, Liu Y, Chen S, et al. Zinc deficiency after bariatric surgery: a systematic review and meta-analysis. Indian J Surg. 2025;87:10-17. doi:10.1007/s12262-024-04082-1.

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